quarta-feira, 8 de abril de 2015

Frei Jerónimo Baía, in 'Fénix' - A umas Mãos


Senhora, estas vossas mãos 
São sobre belas tão lindas, 
Que dão de mão aos arminhos 
Na candidez, com que brilham. 
Formou-as a natureza 
De excelências tão subidas, 
Que por essas mãos perder-me. 
Senhora são mãos perder-me. 
A graça tem às mãos cheas 
Essas vossas mãos benignas, 
Tanto que em mãos de papel 
Nunca todas caberiam. 
Se alguém tocá-las pertende, 
As retirais tão esquiva, 
Tão depressa, que de mão 
Sempre ganhais na fugida. 
Nas mãos vos vi umas letras, 
Que dizem serem mui lindas, 
E com ter as mãos impressas, 
Pareciam manuscritas. 
Não quero jogar convosco 
As mãos, pois sois tão ladina, 
Que como sois mão no jogo, 
Temo ter a mão perdida. 
Perder a mão pouco temo, 
Se nas vossas mãos caíra, 
Porque cair-vos nas mãos, 
Era bem feliz caída. 
Não digo mais destas mãos, 
Porque são mãos tão benignas, 
Que as trazem todos nas palmas 
Das mãos por final de estima. 
Somente digo, que basta, 
Pra mãos encarecidas, 
Dizer um dia um Cigano, 
Que eram mãos de buena dicha. 


Frei Jerónimo Baía, in 'Fénix' 
Título: A umas Mãos
Portugal -1620 // 1688 
Poeta 

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