sexta-feira, 3 de abril de 2015

António Barbosa Bacelar, in 'Fénix Renascida' - A uma Dama


Por fazer lisonja às flores 
De flores touca o cabelo 
Nise, a gala do donaire, 
Nise, a glória dos desejos. 
Invejosas as estrelas 
Murmuraram tanto emprego, 
Se as não contentara Nise 
Com tê-las nos olhos negros. 
De garbo, postura e talhe 
Vai luzida em tanto extremo, 
Que nas vidas que cativa 
Tem muita parte o asseio. 
Quanto pisa e quanto fala, 
Vai brotando e florescendo 
Uma rosa em cada passo, 
Um jasmim em cada alento. 
Caçadora ufana e dextra, 
Quem viu caçadora Vénus? 
Pede as armas emprestadas 
Dizem que a um menino cego. 
Galharda o arco exercita, 
E, com movimento dextro, 
De quantas setas lhe fia, 
Nenhuma lhe leva o vento. 
Guarde-se todo o alvedrio, 
Que não dão as frechas erro, 
Pois para acertar as vidas 
Tomam nos olhos preceitos. 
Despejada comunica 
Ao monte seus raios belos, 
Que nem sempre o majestoso 
Há-de afectar o encoberto. 
E, com deixar-se admirar, 
Nada lhe perde o respeito; 
Mas tais amas traz consigo... 
Pastores, diga-o Fileno. 

António Barbosa Bacelar, in 'Fénix Renascida' 
Título: A uma Dama
Portugal -1610 // 1663 
Poeta 

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